
O livro Poesia e
videoarte (falei sobre ele AQUI) traz uma
série de entrevistas com artistas que estabelecem diálogos entre o conteúdo
lírico e as aberturas do vídeo. Uma delas é com Alberto Saraiva: curador da Oi
Futuro, no Rio de Janeiro e dedicado à curadoria sobre arte e tecnologia, pesquisa
o videoarte, as novas tecnologias e a poesia visual.
Na entrevista fala-se de Oxi, um videopoema do artista, que associa a poesia a um
processo químico e matemático. A obra, de 1996, com duração de 6’, registra o
processo de oxidação de três cápsulas nas quais estão escritas as letras E, U e
T. Na sequência em que são dispostas formam as palavras EU, TEU, TU, ET. O
conceito que o vídeo concentra refere-se ao amor, sua formação e dissolução;
segundo o seu autor, trata-se da “impregnação de uma pessoa na outra”, um duelo
entre um eu-independente e um eu-misturado.
Oxi é um poema visual. É ao mesmo tempo um poema e uma
ação (performance). Trata também a questão temporal: o tempo real do vídeo (registro
da intervenção do performer sobre os objetos que manipula) e o tempo subjetivo,
o tempo-vida transcorrido no contexto do ciclo do amor.
Alberto comenta que suas principais referências quanto
ao poema em linguagem de vídeo são da década de 1980: artistas como Walter da
Silveira, Tadeu Jungle, Lenora de Barros e Omar Khouri.
“Há poesia em tudo, quando é arte”, diz Saraiva, justificando
a plenitude da essência poética na obra artística e também considerando o vídeo
como um meio para o poema – o vídeo-poema não como um mero registro do texto
escrito. Os processos do artista têm mais vínculo com a ideia de processo,
portanto aproxima seu trabalho ao “Marca Registrada” de Letícia Parente, onde a
poesia é construída só com letras ou com uma ou duas palavras.
“É um vídeo sobre amor,
paixão, sobre como as pessoas se aproximam e se misturam; por isso se misturam
no vídeo: EU TU. E é muito importante dizer ‘TEU’. Todas as pessoas dizem ‘eu
sou teu’, pois queremos pertencer, e quando a pessoa não diz, o outro pergunta
‘você é minha?’ ou ‘você é meu?’ e você tem que responder que ‘sim, sou teu, só
teu’.”, observa Alberto Saraiva (p. 61-2)
A entrevista evoca termos como
“poesia experimental” e “literatura visual”; Saraiva comenta que o artista Omar
Khouri fala sobre a poesia dos últimos vinte e cinco anos, referindo-se a uma
poesia intersemiótica, intermultimídia, pós-verso, é algo muito amplo visto que
está misturada a todos os meios. (p.62)
Referência
REZENDE, Renato; MACIEL,
Katia. Poesia e videoarte. Rio de Janeiro: Editora Circuito: FUNARTE,
2013. 160 p.
*todas as imagens foram frames extraídos do videopoema Oxi.

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