14.1.15

"Oxi" / Alberto Saraiva

O livro Poesia e videoarte (falei sobre ele AQUI) traz uma série de entrevistas com artistas que estabelecem diálogos entre o conteúdo lírico e as aberturas do vídeo. Uma delas é com Alberto Saraiva: curador da Oi Futuro, no Rio de Janeiro e dedicado à curadoria sobre arte e tecnologia, pesquisa o videoarte, as novas tecnologias e a poesia visual.
Na entrevista fala-se de Oxi, um videopoema do artista, que associa a poesia a um processo químico e matemático. A obra, de 1996, com duração de 6’, registra o processo de oxidação de três cápsulas nas quais estão escritas as letras E, U e T. Na sequência em que são dispostas formam as palavras EU, TEU, TU, ET. O conceito que o vídeo concentra refere-se ao amor, sua formação e dissolução; segundo o seu autor, trata-se da “impregnação de uma pessoa na outra”, um duelo entre um eu-independente e um eu-misturado. 
Oxi é um poema visual. É ao mesmo tempo um poema e uma ação (performance). Trata também a questão temporal: o tempo real do vídeo (registro da intervenção do performer sobre os objetos que manipula) e o tempo subjetivo, o tempo-vida transcorrido no contexto do ciclo do amor.
Alberto comenta que suas principais referências quanto ao poema em linguagem de vídeo são da década de 1980: artistas como Walter da Silveira, Tadeu Jungle, Lenora de Barros e Omar Khouri.
“Há poesia em tudo, quando é arte”, diz Saraiva, justificando a plenitude da essência poética na obra artística e também considerando o vídeo como um meio para o poema – o vídeo-poema não como um mero registro do texto escrito. Os processos do artista têm mais vínculo com a ideia de processo, portanto aproxima seu trabalho ao “Marca Registrada” de Letícia Parente, onde a poesia é construída só com letras ou com uma ou duas palavras.
“É um vídeo sobre amor, paixão, sobre como as pessoas se aproximam e se misturam; por isso se misturam no vídeo: EU TU. E é muito importante dizer ‘TEU’. Todas as pessoas dizem ‘eu sou teu’, pois queremos pertencer, e quando a pessoa não diz, o outro pergunta ‘você é minha?’ ou ‘você é meu?’ e você tem que responder que ‘sim, sou teu, só teu’.”, observa Alberto Saraiva (p. 61-2)
A entrevista evoca termos como “poesia experimental” e “literatura visual”; Saraiva comenta que o artista Omar Khouri fala sobre a poesia dos últimos vinte e cinco anos, referindo-se a uma poesia intersemiótica, intermultimídia, pós-verso, é algo muito amplo visto que está misturada a todos os meios. (p.62)

Referência
REZENDE, Renato; MACIEL, Katia. Poesia e videoarte. Rio de Janeiro: Editora Circuito: FUNARTE, 2013. 160 p.

*todas as imagens foram frames extraídos do videopoema Oxi.

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